De Proibido a Celebrado: O Que o Legado da Copa do Mundo Feminina Realmente Significa

Daqui a um ano, a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027™ começa no Brasil.
A NO MORE tem orgulho de ser a parceira sem fins lucrativos de uma iniciativa ousada que o Brasil anunciou em março para usar esta Copa do Mundo como plataforma para ajudar a prevenir a violência contra mulheres e meninas em todo o mundo.
Como parte desse esforço e para marcar este marco de um ano, temos a honra de compartilhar um post especial de Marisa Pires Nogueira, pioneira da Seleção Brasileira Feminina de Futebol, refletindo sobre o legado das mulheres no esporte.
Quando comecei a jogar futebol, a paixão nacional não era considerada um esporte para mulheres. Não me refiro apenas a um tabu social, embora certamente também fosse isso. Tratava-se de algo aceito como um fato incontestável, uma proibição amparada por lei e reforçada pela ciência.
“Os pés das mulheres não foram feitos para calçar chuteiras!”, declarou Iguesil Marinho, assessor técnico do Ministério da Educação, em uma reportagem da época.
Durante décadas, as mulheres foram legalmente proibidas de jogar futebol no Brasil. Quando a proibição finalmente foi revogada, em 1979, gerações de meninas já haviam aprendido a amar o esporte em silêncio e longe dos olhos do público. Finalmente, tivemos a oportunidade de fazer publicamente aquilo que há muito tempo era nossa paixão.
Em 1983, o Rio de Janeiro sediou seu primeiro campeonato de futebol feminino. Esse campeonato se tornou a semente que deu origem à primeira seleção experimental feminina do Brasil, que representou o país na China em 1988. Voltamos para casa com uma medalha de bronze.
Para o nosso grupo de pioneiras, não havia exemplos a seguir, nem investimentos, nem estruturas de apoio, e muito menos a crença de que o futebol feminino tivesse futuro. Havia apenas talento bruto, coragem e paixão. Calçamos nossas chuteiras. Vestimos as sobras dos uniformes da seleção masculina. Representamos o Brasil porque amávamos o futebol e acreditávamos que pertencíamos aos gramados.
Sem estrutura, reconhecimento ou remuneração, abrimos portas para a geração que representaria o Brasil na primeira Copa do Mundo Feminina da FIFA, realizada na China em 1991. Pouca gente percebeu. O torneio foi amplamente ignorado pela mídia brasileira. Naquela época, muito poucas pessoas no Brasil, se é que alguém, percebiam que a história estava sendo escrita naqueles campos de futebol.

Quando voltamos para casa, não havia multidões nos esperando no aeroporto. Não havia desfiles. Não havia entrevistas. Se tivéssemos sorte, nossas famílias estavam lá. As famílias que jamais viraram as costas para a “menina diferente” que insistia em entrar em um campo que tantos acreditavam não ter sido feito para ela.
Hoje, muita coisa mudou. Ainda lutamos por igualdade no futebol, no mercado de trabalho e na sociedade. Ainda não chegamos onde queremos estar. Mas já não estamos onde estávamos.
Para as atletas que representaram o Brasil em 1991, nós nos tornamos referências: Marisa, Michael, Sissi, Roseli, Pelé, Cebola e tantas outras. Invisíveis para a mídia do nosso tempo, agora estamos sendo redescobertas pelas novas gerações. E antes de Marta. Antes de Formiga. Antes de o futebol feminino se tornar motivo de orgulho nacional, existiam as pioneiras.
É por isso que a Lei do Legado da Copa do Mundo Feminina é tão importante. Pela primeira vez, o país reconhece oficialmente algo que muitas de nós aprendemos há muito tempo dentro de campo: o futebol pode transformar vidas muito além das quatro linhas. Ele pode criar oportunidades, formar lideranças, desafiar estereótipos e ajudar a construir um futuro mais justo para meninas e mulheres.
A lei também inclui algo profundamente simbólico: o reconhecimento oficial das gerações pioneiras de 1988 e 1991. É mais do que reconhecimento. É justiça histórica.
Durante décadas, nossa história permaneceu praticamente invisível. Hoje, ela finalmente está sendo trazida para a luz. E talvez em nenhum lugar esse simbolismo seja tão poderoso quanto no que aconteceu esta semana.
Um ano antes de o Brasil sediar a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027, o Cristo Redentor será iluminado em celebração ao futebol feminino. Para muitas pessoas, será uma imagem bonita. Para aquelas de nós que passamos anos ouvindo que futebol não era coisa de mulher, significa algo muito maior. É como se um holofote finalmente iluminasse um capítulo da história que o Brasil demorou tempo demais para enxergar.
Eu faço parte desse capítulo. Faço parte de uma geração que jogou com coragem muito antes de termos palavras para descrever a força que nos movia. Era simplesmente o nosso amor pelo futebol, o nosso amor pelo Brasil e o nosso amor pela vida.
Hoje, essa história se transformou em orgulho, legado e pertencimento. Tudo aquilo que torna o futebol tão poderoso e, talvez, uma das expressões mais unificadoras do que significa ser brasileiro.
Lá em 1988, entramos em campo carregando uma bola, um sonho e uma saudável dose de teimosia. Jamais poderíamos imaginar que um dia haveria uma Copa do Mundo Feminina no Brasil, um Cristo Redentor iluminado marcando a contagem regressiva de um ano e milhões de meninas crescendo sem precisar pedir permissão para jogar.
Para alguém que passou tantos anos ouvindo que futebol não era para mulheres, é uma cena difícil de descrever. Talvez seja isso que as pessoas querem dizer quando falam sobre legado.
Legado não é um troféu. É o momento em que uma menina amarra as chuteiras pela primeira vez e nem consegue imaginar que houve uma época em que alguém lhe disse que ela não pertencia àquele lugar.
Sobre a autora: Marisa Pires Nogueira é uma das pioneiras do futebol feminino brasileiro. Ex-zagueira e primeira capitã da história da Seleção Brasileira Feminina, representou o Brasil em competições internacionais desde 1988 e ajudou a abrir caminho para o crescimento do futebol feminino no país.
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